PENNYWISE E CIA

Quem nunca teve medo de palhaços? Por mais adoráveis que sejam essas criaturas, elas povoam nosso imaginário de uma forma levemente macabra; com suas roupas coloridas, suas pinturas exageradas e seu comportamento bufão. Há até um nome específico para a síndrome: coulrofobia.

Muitos, portanto, foram os filmes que usaram esta imagem para aterrorizar. Poltergeist, Clownhouse, Killjoy… Tivemos até mesmo palhaços assassinos vindos do espaço, além de vários outros.

Mas, certamente, uma das imagens mais icônicas deste personagem representado de forma assustadora é a de Pennywise; o palhaço demoníaco da obra de Stephen King ‒ IT.

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A primeira adaptação deste livro foi apresentada em uma minissérie de dois episódios, lançada para a TV em 1990, e conta com a inesquecível interpretação de Tim Curry como Pennywise (ou Parcimonioso, na tradução do livro para o português).

Eu me lembro de ter assistido a esse filme quando muito pequena, e ele me aterrorizou de tal forma que fiquei um pouco traumatizada com terror na época. Até hoje eu não reassisti, mas me lembro perfeitamente da cena onde a personagem de Beverly, única menina do grupo, vê sangue saindo da torneira de seu banheiro.

Foi aos doze anos que fui introduzida ao mundo de Stephen King. Sempre fui uma leitora ávida e meio precoce, já que com essa idade eu já não queria mais ler Pedro Bandeira e afins. Minha mãe sempre colecionou livros, e um dos preferidos dela se chamava O Iluminado. Peguei para lê-lo, sabendo que se tratava de um livro de horror, e eu não era exatamente fã do gênero (culpa de King e seu Pennywise e… bem… de Chucky também, confesso), porém, fiquei tão apaixonada pela história que busquei outras do mesmo gênero para devorar. Na época eu li em combo: A Profecia, Horror em Amytiville, O Bebê de Rosemary, dentre outras, inclusive do próprio King…

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Mas IT surgiu em minha vida mais recentemente. Sendo um calhamaço assustador, ficou parado na minha estante por muitos anos até que eu tomasse coragem de ler. E posso dizer com segurança que se tornou um dos livros mais fascinantes da minha vida.

King é um verdadeiro mestre de contar histórias. Ele tece toda a teia, preparando o ambiente e dando pequenas pistas do que está acontecendo ao redor. Jamais entrega nada de graça, e a forma como ele conduz a narrativa te coloca dentro da trama de um jeito tão brilhante que quando menos se espera, você está sofrendo junto com os personagens.

Em IT – A Coisa, ele nos apresenta Derry, uma cidadezinha fictícia no Maine, que se torna palco de algumas outras histórias suas. E é lá que um grupo de sete crianças forma O Clube dos Perdedores, unindo-se para investigar uma possível maldição que aterroriza o local, de 27 em 27 anos ‒ um ser extradimensional que, diferente do que a maioria das pessoas pensa, não é apenas um palhaço, mas uma “coisa” (como o nome mesmo diz), que pode assumir a forma do seu maior medo.

Capas: Edição brasileira – Edição Americana (hardcover)

O livro intercala passado e presente o tempo todo, mostrando em ordem não linear toda a jornada dessas sete crianças e dos sete adultos que eles se tornam, até chegarem a Pennywise, em ambas as vezes. Jornadas essas que acabam se entrelaçando, uma vez que a “coisa” não foi destruída na primeira tentativa do grupo, que faz um pacto de sangue de retornarem à cidade caso o mal volte a atacar. E é o que acontece, por isso, na obra temos duas batalhas contra o inimigo.

E se há uma coisa que King sabe fazer como ninguém é construir personagens. Detalhes de personalidades são todo o diferencial de sua escrita, principalmente, porque ele não tem medo de exagerar. Ele é prolixo e adora dar destaques a cada um, mesmo que se trate de alguém mais secundário. Mesmo que se trate de um sofá da casa de alguém, que não é exatamente tão importante, mas que terá alguma relevância ínfima em uma cena. Em IT, ele conta uma história, principalmente, de amizade. Apesar de ser um livro de terror, este é apenas um pano de fundo em um conto de formação. Os laços criados pelas sete crianças nos proporcionam um quentinho no coração e nos remontam às nossas próprias infâncias. E é exatamente por isso que torcemos por cada um deles, que sofremos com suas derrotas e tememos por sua segurança.

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A versão do filme lançada em 2017 soube captar muito bem essa atmosfera de camaradagem. Como opção dos roteiristas, o longa contou toda a história do passado, usando apenas as crianças nesta primeira parte, deixando para apresentar suas versões adultas em um segundo momento. O elenco infantil é afiado, e chega a ser difícil apontar um favorito, pois todos captaram muito bem as personalidades distintas dos personagens ‒ temos o gaguinho, o hipocondríaco, o metido a sabichão, a menina que sofre violência doméstica, o gordinho, o judeu e o negro que sofre racismo. Por todas essas características, sendo considerados os “perdedores” da escola, além de lidarem com a ameaça do Pennywise, os pequenos ainda precisam fugir dos bulliers do colégio ‒ especialmente de Henry Bowers, o perturbado e violento líder dos valentões.

Outra escolha interessante do filme foi transportar a primeira versão da história para os anos 80, enquanto no livro ela acontece nos anos 60. A decisão foi inteligente, porque a nostalgia oitentista está muito em voga, especialmente com o sucesso de Stranger Things. Além disso, como o filme tem essa pegada de aventura e crianças, ele nos remonta aos clássicos de nossa infância, como: Goonies, Conta Comigo (também do King), Garotos Perdidos e etc.

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Vale ressaltar também a interpretação incrível de Bill Skarsgård como Pennywise, por toda a fisicalidade e pela dedicação ao personagem, que conseguiu até mesmo se equiparar à rendição cultuada de Tim Curry. Também encontramos, nesta versão de 2017, outro rosto conhecido; o de Finn Wolfhard, o adorável Mike de Stranger Things.

Preciso também comentar sobre algo que me deixou muito aliviada na versão Hollywoodiana de IT ‒ a total exclusão de uma cena que muito me incomodou no livro. Não vou comentar com detalhes, uma vez que poderia ser um spoiler para quem ainda vai ler a obra, mas tem algo a ver com a sexualização dos personagens, levando em consideração que eles tinham apenas doze anos durante a aventura. Além disso, o final do livro é extremamente viajado, e eu espero que o cinema também dê uma modificada nisso, principalmente, porque IT é uma obra que foi escrita numa fase muito sombria da vida de King, quando ele estava completamente consumido pelas drogas. Eu já li a biografia dele (sim, sou realmente fã), e ele nos conta que livros como Cujo e o raríssimo The Tommyknockers (que não tem uma versão no Brasil há mais de vinte anos) foram escritos à base de cocaína, e ele nem sequer se lembra de tê-los criado. Acredito que este vício deva ter influenciado a construção desse desfecho, embora isso não tire o mérito da obra de forma alguma.

Teremos em 2019, finalmente, a segunda parte deste filme, e já foram anunciados nomes de peso para o elenco. James McAvoy (o Professor Xavier de X-Men), como Billy, e a belíssima Jessica Chastein (de A Colina Escarlate e Interestelar), como Beverly, dentre outros. Estou ansiosa para assistir à conclusão de um dos meus livros favoritos e saber como eles irão conduzir os acontecimentos finais do livro.

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Ah, e preparem o coração… Fica a dica.


JOGO TEMÁTICO

Para nós que curtimos um game, o site oficial do filme disponibilizou um jogo em 8-Bits. Clique na imagem abaixo e transforme-se no barco de papel de George dentro do esgoto:

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