OLD BOY

Até que ponto você iria para se vingar de alguém? Pois com certeza não chegou nem perto da vingança apresentada nesse filme.

De vez em quando, aparecem certos filmes que mexem com o espectador; que tomam a atenção de quem estiver assistindo e ficam na cabeça por dias, semanas, meses. Oldboy, do diretor sul-coreano Chan-Wook Park, é um desses filmes. Baseado no homônimo mangá japonês de Tsuchyia Garon e Minegishi Nobuaka, lançado em 1997, Oldboy é o segundo capítulo de uma trilogia de histórias sobre vingança que Park começou a filmar em 2002, com o espetacular Sympathy for Mr. Vengeance e que terminou em 2005 com o excelente Sympathy for Lady Vengeance.

O argumento de Oldboy (que bebe da fonte Kafkiana) conta a infeliz história de Oh Dae-Su, vivido brilhantemente por Min-Sik Choi, homem comum que é detido sem saber que crime cometeu e passa os 15 anos seguintes preso no que parece ser um quarto de hotel. Sem ver uma única criatura viva durante o tempo em que fica preso, seu único contato com o mundo exterior é através de uma televisão (a montagem da passagem dos anos é sensacional), pela qual acompanha as mudanças no mundo e fica sabendo que sua mulher foi assassinada, sendo ele o principal suspeito. Aliás, o filme toca no assunto da formação da personalidade das pessoas pela televisão de forma sutil, mas eficiente. A TV, segundo Dae-su, funciona como calendário, amigo, escola, relógio, igreja e… amante.
OLDBOY
Sem poder fugir nem dar fim ao seu sofrimento, já que toda vez que tenta se matar alguém o impede, começa a enlouquecer, e a única saída que lhe resta é viver somente para encontrar e destruir o seu raptor. À medida que o tempo passa (e com a ajuda da TV), Oh Dae-Su aprende artes marciais e pratica esmurrando um desenho feito numa das paredes da prisão. Prestem atenção nos calos nas mãos do protagonista, detalhe que o filme não esquece.
E, da mesma forma que foi preso, Dae-Su é libertado. Solto, quer reexperimentar a vida, momento que culmina numa das cenas mais tocantes do longa, quando Dae-su, após o longo confinamento e reduzido praticamente a um animal que só pensa em vingança, quer tocar e sentir o toque e o cheiro de outro ser humano.
Deste ponto em diante, o roteiro, poderosamente bem escrito, se dedica a estudar os efeitos e consequências que um longo isolamento pode provocar numa pessoa. Um celular e uma carteira cheia de dinheiro lhe são dados, e ele resolve pôr em prática o treinamento imaginário ao qual se submeteu por 15 anos. Sem ter para onde ir, se dirige a um restaurante japonês e o telefone toca. Alguém lhe diz que ele tem apenas cinco dias para descobrir quem o aprisionou e por quê. Com a ajuda da sushiwoman Mido, Oh Dae-Su parte em busca das respostas que procura. A partir daí, são fornecidos novos dados que vão desenrolando o quebra-cabeças, e o que era uma trama de suspense e ação se transforma numa tragédia grega que só vendo o filme para ter ideia.
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Se o castigo imposto ao nosso anti-herói soa extremamente cruel à primeira vista, quando a dimensão da tragédia pessoal dos personagens vem à tona e as razões que  motivaram a vingança são devidamente explicadas, passamos, se não a aceitar a vingança, pelo menos a entendê-la, pois TODOS os personagens são humanos. E ao humanizar os personagens, Park joga em cima do espectador a tarefa de achar culpados e inocentes, provocando em nós o sentimento ambíguo de torcer pelo protagonista sem, necessariamente, odiar o antagonista. Com uma fotografia extremamente bem cuidada e escura que dá ao longa um tom quase noir, o filme coleciona cenas impressionantes. Uma delas é a sequência de luta na qual Dae-su enfrenta sozinho cerca de 20 capangas no corredor de um prédio com um martelo. Filmada sem cortes, ela tem pouco mais de três minutos e parece real e cansativa como poucas. Como a câmera se movimenta apenas lateralmente, temos a sensação de estarmos diante de um jogo em 2D, como Final Fight. Simplesmente sensacional. Outra cena muito comentada é a que Oh Dae-Su come um polvo vivo. A trilha sonora, assim como em Kubrick, é elemento importantíssimo como complemento da violência que explode ao som da mais bela música clássica, valsa e música eletrônica.

Falando em violência, a crítica especializada costuma dizer que o filme é ultra-violento. Eu concordo e discordo ao mesmo tempo. É claro que existe violência no filme, mas nada exagerado (vide Ichi the Killer e seus vários jatos de sangue arterial) como andam falando. Enquanto em filmes como Sin City e O Resgate do Soldado Ryan, por exemplo, a violência física é explícita e voam braços e cabeças; em Oldboy ela é muito mais sugerida, mostrando o início do ato e em seguida suas consequências. A real e gigantesca violência do longa (quem viu o filme e tem um mínimo de sensibilidade sabe do que estou falando) vem de outro lugar, mas dizer de onde é entregar o filme.

 

Com a direção extremamente segura e competente de Park, somos levados para dentro de uma trama de vingança eletrizante, original e diabolicamente bem bolada (quando a surpresa final foi revelada, o que mais se ouvia no cinema era c¨&¨$#aralho!!! e PQP!!). As atuações de Hye-jeong Kang e Yu Ji-Tae são excelentes, mas quem rouba a cena é Choi Min-sik, que impressiona pela forma como se entrega ao personagem transmitindo raiva, dor e desespero de forma sincera, e cuja interpretação apenas nos 20 primeiros minutos do longa faria muitos “oscarizados” de Hollywood ficarem vermelhos de vergonha.
Vencedor do prêmio do júri no festival de Cannes de 2004, Oldboy é cinema com “C” maiúsculo. Visceral, pesado e perturbador. O filme, que trata de forma brilhante e original temas como a vingança e suas consequências, e como palavras aparentemente inofensivas podem afetar de maneira brutal a vida alheia, é, no fim das contas, uma intensa história de amor. E nunca um “eu te amo” soou tão doloroso quanto neste filme.
Finalmente, você pode até não gostar do longa (o que acho MUITO difícil) por não ser uma obra fácil de se assistir e por ele conseguir a proeza que poucos filmes têm conquistado de uns anos pra cá: fazer o espectador pensar (ainda que ele não esteja disposto a isso), mas indiferença é um sentimento que, com certeza, não vai sequer passar pela sua cabeça depois de terminada a exibição, pois é impossível sair ileso de um filme como esse. Então fica o conselho: se você só gosta de histórias alegres e saltitantes, nem chegue perto de Oldboy.

Trailer no Youtube: 

Com: Min-Sik Choi, Ji-tae Yu, Hye-jeong Kang, Dae-han Ji, Dal-su Oh. “Old boy” 119 mins. Coréia do Sul, 2003. Direção: Chan-wook Park.
Por Diogo Giglio

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